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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

ABORTO: A RESPONSABILIDADE DO PAI E DO PROFISSIONAL DE SAÚDE


          Um tema importante para se debater é a responsabilidade do pai da criança abortada, que estimulou ativamente ou que influenciou a realização do aborto com sua omissão. Qual a parcela de responsabilidade que lhe cabe? Afinal, a mulher não pode ser o único foco responsável da questão. Nesse momento identificamos o machismo perverso que ainda sobrevive em nossa sociedade.

         O conceito hipócrita que atribui à mulher a condição de única responsável pelo crime praticado, uma vez que é ela quem de fato realiza o aborto. E o homem covarde que a fecundou fica isento de responder legal e socialmente pelo ato. Todavia, a Divindade o conhece e as Leis da Vida não permitem que ele fuja de sua própria consciência, pois o homem reconhece que cometeu um crime vergonhoso, mesmo que não esteja ciente de que a mulher vai abortar. O seu delito, inicialmente, foi não oferecer apoio àquela que ele fecundou, já que este apoio é compreendido como uma responsabilidade paterna intransferível. A tarefa de cuidar da criança e a responsabilidade por um eventual aborto não podem ser depositados apenas sobre os ombros da mulher.


        Não importa que o ato sexual praticado pelo homem tenha sido por uma busca leviana de prazer momentâneo ou por causa do uso de bebida alcoólica e drogas numa festividade qualquer, que afetaram o seu julgamento em relação aos próprios atos. Isso é indiferente. Se o parceiro procurou-a para o sexo, com qualquer motivação que se possa imaginar, tem o dever de ampará-la, no caso de uma gravidez que surpreenda os dois, pois o que acontecer com a vida da gestante e da criança terá o pai como corresponsável. Os amigos espirituais são unânimes nesta opinião.

        Já os pais de adolescentes que incentivaram ou patrocinaram o aborto para ajudarem a filha a se livrar de uma gravidez não planejada são duplamente responsáveis pelo grave delito. Primeiro, porque não educaram, não vigiaram e não atenderam às necessidades afetivas da filha, deixando-a correr um risco desnecessário. E agora, para diminuir a culpa ou as consequências da sua invigilância, levam-na a perpetrar um crime muito maior, que pesará na economia espiritual dela e deles também, que são corresponsáveis.

         Por outro lado, os profissionais de saúde que praticam a interrupção criminosa da gestação, são pessoas que cometeram um delito ainda mais cruel! Fizeram um juramento para salvar a vida e respeitá-la, mas estão amealhando recursos financeiros que defluem de um crime praticado contra a vida, ainda mais quando se trata de vítimas indefesas.

          A História do século XX narra a trajetória de profissionais que cometiam mais de dez abortos por dia nos Estados Unidos. Nesse país, foi publicado um documentário denominado O Grito Silencioso, que mostra filmagens de abortos utilizando microcâmaras para captar imagens intrauterinas. As cenas documentam o momento exato da expulsão dolorosa da criança que se encontra no organismo materno. Quando o profissional introduz uma lâmina ou um aparelho qualquer para despedaçar a criança e retirá-la do útero, o pequeno ser percebe que será assassinado e desfere um grito pungente que ninguém ouve, mas que traduz o sofrimento de uma vida sendo esfacelada.

          Esses profissionais corrompidos são verdadeiros infanticidas que, no seu ato de desmantelar a vida, assemelham-se àqueles que trabalham num abatedouro de animais, separando peças bovinas destinadas ao fornecimento de carne para consumo humano. O indivíduo que se encontra no abatedouro ao menos está exercendo uma profissão para a qual foi treinado, enquanto o profissional de saúde que pratica o aborto não foi preparado para matar, mas sim, para salvar.

          O médium e orador espírita Divaldo Franco fala que em um país que visita periodicamente há muitas décadas, está ocorrendo um fenômeno inusitado. Como o aborto foi legalizado nesse país, várias mulheres têm procurado médicos para realizarem a interrupção da gravidez a seu bel-prazer. E quando chegam ao consultório essas gestantes se deparam com muitos médicos que se recusam a efetuar o procedimento, afirmando que ele fere a ética da sua profissão. Este comportamento denota um amadurecimento psicológico coletivo da classe médica naquele país, atingindo um elevado patamar de dignidade humana e de respeito pela vida.

          Mesmo nos países em que o aborto foi legalizado, o profissional de saúde que adere a essa prática estará dilapidando o patrimônio que lhe foi concedido por Deus, para que se tornasse um benfeitor da humanidade, porque ele fez um juramento para salvar vidas.


         Na atualidade, alguns conceitos científicos mostram-nos que o compromisso dos profissionais de saúde não é impedir a morte a qualquer preço, mas salvar vidas ou tornar a vida mais agradável, prolongando-a sempre que possível e colaborando para que tenha qualidade. Nesse painel de responsabilidades claramente estabelecidas, por que uma pessoa, que exerce uma profissão de saúde, se permitiria o luxo de matar? Por que converter o sacerdócio num profissionalismo vulgar?

         As consequências desta atitude são imprevisíveis, porque ninguém burla impunemente as Soberanas Leis da Vida. Mas não apenas para a mãe, senão também para o genitor do feto que tenha contribuído para a infeliz decisão, assim como para aquele que é o aborteiro.

          Para que a decisão da mãe seja a do aborto, quase sempre o genitor tem envolvimento emocional indireto. A sua conduta pode ser visualizada como um fator preponderante. A negligência do mesmo em não se responsabilizar pela aceitação do filho, negando-se ao dever que se deriva da autoria da concepção, faz com que ele se torne corresponsável pela tragédia.

        Ao médico, por sua vez, cabe o dever de preservar a vida em qualquer forma como se apresente e jamais interrompê-la, porquanto, para tal jurou e aprendeu como fazê-lo. Nesse conúbio que se apresenta entre a mulher que se sente defraudada, o homem que a explorou e aquele que interrompe a existência em formação, surge um compromisso negativo que os une para o futuro, nas consequências que sofrerão perante a Consciência Cósmica...


Fonte: Livro Sexo e Consciência de Divaldo Franco. Organizado por Luiz Fernando Lopes.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

CONSEQUÊNCIAS E RESPONSABILIDADES DO ABORTO


         São muito graves os efeitos na economia moral de quem opta por fazer o aborto ou de quem o incentiva. Na ignorância moral em que se encontra e estando consciente da ocorrência, o Espírito abortado rebela-se e busca vingança, por compreender que lhe foi negada a oportunidade de evoluir. Não são poucos os casos de obsessões que tem a sua gênese no aborto provocado.

         As mulheres que engravidam e matam seus filhos com muita naturalidade desconhecem que são responsáveis por esse terrível flagelo que se impõem a si mesmas, pois os Espíritos abortados normalmente não as perdoam, o que provocará um litígio de grandes proporções. Eles acompanham sutilmente essas mulheres até que elas vivenciem alguma dificuldade na vida. Nesse momento, eles se voltam contra elas e exacerbam seus conflitos existenciais até conseguirem perturbá-las, atirando-as em estados depressivos ou facilitando quadros psicóticos aparentes, que na verdade são transtornos mediúnicos, classificados como obsessões espirituais. Em seguida, esse processo alcançará também o homem que foi motivo do crime hediondo.

         Quando ainda não se encontra consciente do que lhe ocorreu, o Espírito sofre o ato cruel e imanta-se por afinidade àquela que o expulsou do útero materno. Como esses seres prematuramente expulsos do corpo já estavam com seu períspirito imantado às células, o organismo físico é eliminado, mas permanecem as suas fixações perispirituais junto ao organismo da mulher, o que poderá causar um futuro câncer de colo de útero e outras doenças do sistema reprodutor feminino. O ódio desses seres que tiveram a vida cerceada transforma-se em uma alucinação convertida em ondas mentais deletérias no organismo fragilizado da mulher, que as assimila e sofre alterações no seu estado de saúde.


         O médium e orador espírita Divaldo Franco relata a seguinte história: “Certa vez, eu conheci uma senhora que deveria ter uns trinta anos de idade, quando começou a frequentar a Mansão do Caminho.
         Quando contava aproximadamente cinquenta e cinco anos, ela recebeu o diagnóstico de um câncer de útero, que ao ser revelado já havia produzido metástase óssea que lhe provocava dores quase insuportáveis.
         Naquela época, na cidade de Salvador, não havia quimioterapia. O único tratamento disponível era a radioterapia aplicada no Hospital do Câncer. A minha amiga submeteu-se ao tratamento radioterápico e ficou com muitas lesões no corpo, porque a técnica ainda estava em fase experimental. Quando ela estava muito mal mandou chamar-me. Eu já a visitava periodicamente, mas, na ocasião, ela deu-se conta de que iria desencarnar e desejava falar-me. O câncer já havia invadido o mediastino e o óbito era uma questão de tempo.
         Eu procurei levantar-lhe o ânimo, quando, então, ela fez-me a seguinte revelação: 
         — Divaldo, as Leis de Deus são soberanas. Eu sei por que estou com câncer. E felizmente a Doutrina Espírita chegou em boa hora para mim. Só a assimilei depois da doença. Como você sabe, eu conheço o Espiritismo há alguns anos, pois frequento a sua instituição faz muito tempo. Mas ainda não o havia digerido adequadamente. Eu aceitava a proposta sem maiores compromissos e permanecia enganando-me. A minha situação é a seguinte: eu tenho um companheiro que é um homem casado. Eu o amo muito e ele também diz que me ama. Nesses últimos vinte anos eu realizei mais de uma dezena de abortos dele, já que eu não poderia ser mãe. Ele me garantia que se eu preservasse um filho nosso e ele descobrisse, seria a última vez em que nos veríamos, pois ele nunca deixaria a esposa e nunca registraria um filho fora do casamento. Naquela época, não havia exame de DNA nem a imposição da lei para que o pai biológico assumisse a responsabilidade pelo filho. Então, por amor a ele, eu abortei em mais de dez ocasiões diferentes.
         Eu fiquei simplesmente estarrecido! Como a alma humana é complexa! Como é que ela pôde ouvir a proposta de Jesus, os enunciados a respeito do “Não matarás”, e em nome de um amor irreal, que era somente desejo, tormento sexual, matar crianças com tanta impiedade? Porque o amor não mata! O amor liberta! Se ela realmente amasse aquele homem, dir-lhe-ia: “Prefiro vê-lo feliz com a sua mulher a vê-lo atormentado comigo, causando-me também infelicidade”. Se ela de fato o amasse, renunciaria ao relacionamento sexual com ele e continuaria amando-o, desde que ele já era feliz com a esposa.
         Por isso, o câncer era o resultado de todas as agressões que ela praticou contra o próprio organismo. Felizmente, a sua consciência despertou ainda aqui na Terra. E menos de uma semana depois do nosso diálogo ela desencarnou.
         Muitos anos mais tarde eu a encontrei em uma visita a uma região dolorosa do mundo espiritual inferior, para onde os Espíritos amigos me conduziram em desdobramento consciente a fim de realizar observações e estudos. Ela me reconheceu e contou-me as consequências dos seus atos criminosos.
        Esclareceu-me que estava profundamente arrependida dos abortos praticados. Mas os seres cujas vidas ela havia destruído não a perdoaram, sendo que um deles tentou renascer oito vezes, e dela recebendo uma resposta negativa por meio da interrupção criminosa da gestação.
       Alguns dos Espíritos receberam da Misericórdia Divina a oportunidade de reencarnar em outras famílias. Porém, esse reincidente desenvolveu por ela um ódio tão intenso que se lhe alojou psiquicamente no útero e deu início ao processo de alterações celulares que culminou no câncer e na sua desencarnação.
       Por fim, ela informou-me que estava programada para reencarnar junto a esse Espírito vingativo, como gêmeos xifópagos (gêmeos siameses), para que os dois pudessem regularizar o débito contraído. São muitas as consequências do aborto na encarnação subsequente.”

       Poucos sabem que Divaldo Franco poderia ter sido abortado, mas a sua mãe negou fazer o aborto. A seguinte confissão de cunho pessoa de Divaldo sobre o assunto:  “Não tenho a intenção de concordar com a atitude de revide que os seres abortados assumem perante aquelas pessoas que lhes roubaram a oportunidade da reencarnação, mas quero dizer que eu compreendo perfeitamente a dor que lhes aniquila os sentimentos profundos, pois sou o décimo terceiro filho de uma família numerosa, e quase não pude renascer... Pelo desejo dos meus pais, o meu irmão, que é cinco anos mais velho do que eu, seria o último filho a nascer. Minha mãe já experimentava os primeiros sinais do climatério quando percebeu algo estranho no seu corpo e consultou-se com um médico, que lhe deu a inesperada notícia de uma gravidez tardia. Por causa do organismo debilitado, depois de doze partos e três abortos espontâneos, o médico sugeriu-lhe que interrompesse a gestação para que ela não tivesse a saúde gravemente comprometida. A orientação médica foi dada nos seguintes termos:
        — Dona Ana, vamos fazer o aborto! A senhora já realizou sua missão de mãe com os doze filhos que Deus lhe concedeu.
        — Não, doutor! Eu não vou abortar meu filho!
        — Mas esta criança vai matá-la! A senhora não tem condições de saúde para resistir!
        Diante dos argumentos do médico, era provável que qualquer pessoa aderisse à proposta por ele apresentada. Nossa família tinha muitas dificuldades financeiras e faria ainda maiores sacrifícios se mais uma criança viesse ao mundo. Não obstante, a minha mãe, contrariando aquilo que para muitos seria uma solução óbvia, voltou-se para o médico e respondeu:
       — Se eu morrer no intuito de dar a vida a um filho, para mim será uma honra!
       (...) E a minha mãe não me abortou. Eu tenho para com ela uma dívida de gratidão indescritível! Ao correr o risco de sacrificar sua própria vida, ela me permitiu mais de oitenta anos de existência física. Se me tivesse abortado, será que eu a amaria? Será que eu não estaria hoje dominado pela mágoa (e até mesmo pelo ódio) de ver perdida a chance que a Divindade me desenhava naquele momento? Não se pode descartar esta hipótese. No entanto, aqueles seres que indubitavelmente ainda se encontram num patamar incipiente de evolução psicológica cultivarão sentimentos de animosidade e de revolta que geram obsessões das mais lamentáveis, com consequências que se estendem para a vida espiritual.
       É fascinante constatar como devemos fazer tudo ao nosso alcance para preservar a vida. A vida humana é patrimônio de Deus e ninguém, sob pretexto algum, tem o direito de interrompê-la. O aborto, sob qualquer aspecto em que se apresente, permanece como crime hórrido que um dia desaparecerá da Terra, em face da crueldade e covardia de que se reveste.”


Fonte: Livro Sexo e Consciência de Divaldo Franco. Organizado por Luiz Fernando Lopes.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A TERRA JÁ ERA POVOADA DEPOIS QUE CAIM MATOU ABEL?



          Caim (depois da morte de Abel) respondeu ao Senhor: Minha iniquidade é
muito grande para poder dele obter o perdão. – Vós me expulsais hoje de cima da Terra, e eu irei me esconder de diante de vossa face. Eu serei fugitivo e vagabundo sobre a Terra, portanto, quem quer que me encontre, me matará. – O Senhor lhe respondeu: Não, assim não será; porque quem matar Caim será punido muito severamente por isso. E o Senhor pôs um sinal sobre Caim, a fim de que aqueles que o encontrassem não o matassem.


         Tendo Caim se retirado de diante da face do Senhor, foi vagabundo sobre a Terra, e habitou a região oriental do Éden. – E tendo conhecido sua mulher, ela concebeu e pariu Henoch. Ele edificou uma cidade, a que chamou Henoch (Enochia) do nome de seu filho.

         Se se prender à letra da Gênese, eis a que consequências se chega: Adão e Eva estavam sozinhos no mundo depois de sua expulsão do paraíso terrestre; não foi senão posteriormente que tiveram por filhos Caim e Abel. Ora, tendo Caim matado o seu irmão e tendo se retirado para uma outra região, não reviu mais seu pai e sua mãe, que ficaram de novo sozinhos; não foi senão muito tempo depois, com a idade de cento e trinta anos, que adão teve um terceiro filho, chamado Seth. Depois do nascimento de Seth, ele viveu ainda, segundo a genealogia bíblica, oitocentos anos, e teve filhos e filhas.

          Quando Caim veio se estabelecer no oriente do Éden, não havia, pois, sobre a Terra senão três pessoas: seu pai, sua mãe e ele, sozinho de seu lado. Entretanto, ele teve uma mulher e um filho; qual poderia ser essa mulher, e onde pudera tomá-la? O texto hebreu diz: Ele estava edificando uma cidade, e não ele edificou, o que indica uma ação presente e não uma ulterior; mas uma cidade supõe habitantes, porque não se deve presumir que Caim a fez para ele, sua mulher e seu filho, nem que pôde construí-la sozinho.

         É necessário, pois, inferir desse relato mesmo que a região estava povoada; ora, não poderia sê-lo pelos descendentes de Adão,  que então não tinha outro descendente senão Caim.

         A presença de outros habitantes ressalta igualmente desta palavra de Caim: “Eu serei fugitivo e vagabundo, e quem quer que me encontre me matará,” e da resposta que Deus lhe deu. Por quem  poderia temer ser morto, e para que o sinal que Deus pôs sobre ele para preservá-lo, se não deveria encontrar ninguém? Se, pois, havia sobre a Terra outros homens fora da família de Adão, é porque aí estavam antes dele; de onde esta consequência, tirada do próprio texto da Gênese, que Adão não foi nem o primeiro e nem o único pai do gênero humano.

         Está ideia não é nova. La Peyrère, sábio teólogo do século dezessete, em seu livro aos Pré-adamitas, escrito em latim e publicado em 1655, tirou do próprio texto original da Bíblia, alterada pelas traduções, a prova evidente de que a Terra era povoada antes da vinda de Adão. Esta opinião é hoje a de muitos eclesiásticos esclarecidos. 


Fonte: A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. XII.

terça-feira, 31 de julho de 2018

ADÃO E EVA - EXPLICAÇÃO ESPÍRITA


O Espiritismo sendo o consolador prometido por Jesus, e vindo explicar o que Jesus não pode explicar em seu tempo, segundo o próprio Mestre; explica a passagem bíblica de Adão e Eva, no livro A Gênese, de Allan Kardec. O texto que se segue contém a passagem bíblica da parte da gênese referente à Adão e Eva, e posteriormente a explicação espírita para o assunto.

Ora, o Senhor Deus plantara desde o começo um jardim delicioso, no qual colocou o homem que formara. – O senhor Deus também produzira da terra todas as espécies de árvores belas à visão e cujos frutos eram agradáveis ao gosto, e a árvore da vida no meio do paraíso, com a árvore da ciência do bem e do mal.

O Senhor tomou, pois, o homem e o colocou no paraíso de delícias, a fim de que o cultivasse e guardasse. Deu-lhe também esta ordem e lhe disse: Comei de todas as árvores do paraíso. Mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no mesmo tempo que dela comeres morrerás muito certamente.

Ora, a serpente era o mais sagaz de todos os animais que o Senhor formara sobre a Terra. Ele disse à mulher: Por que Deus vos ordenou para não comer o fruto de todas as árvores do paraíso? É que disse, Eloim: não comereis  de nenhuma árvore do jardim? A mulher lhe respondeu: Nós comemos os frutos de todas as árvores que estão no paraíso. Mas para o que é o fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus nos ordenou para dela não comer, e não tocá-la, de medo que estivéssemos em perigo de morrer. A serpente respondeu à mulher: Seguramente, não morrereis; mas é que Deus sabe que logo que houverdes comido desse fruto, os vossos olhos serão abertos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.

A mulher considerou, pois, que o fruto dessa árvore era bom para comer; que era belo e agradável à visão. E tendo-o tomado, comeu-o, e dele deu ao seu marido para que comesse também.

E como eles ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no paraíso depois do meio dia, quando se eleva um vento brando, eles se retiraram para o meio das árvores do paraíso, para se esconderem de diante de sua face.

Então o Senhor chamou Adão, e disse-lhe: Onde estais? Adão lhe respondeu: Eu ouvi a vossa voz no paraíso, e tive medo porque estava nu; foi por isso que me ocultei. O Senhor lhe respondeu: De onde soubestes que estáveis nu, senão porque comestes do fruto da árvore da qual vos proibi de comer? Adão lhe respondeu: A mulher que me destes por companheira me apresentou o fruto dessa árvore, e eu comi. O Senhor Deus disse à mulher: Por que fizestes isso? Ela respondeu: A serpente me enganou, e eu comi desse fruto.

Então o Senhor Deus disse à serpente: Porque fizeste isso, és maldita entre todos os animais e todas as bestas da Terra; rastejarás sobre o ventre, e comerás a terra todos os dias de tua vida. Colocarei uma inimizade entre ti e a mulher, entre a sua raça e a tua. Ela te quebrará a cabeça e tu tratarás de mordê-la pelo calcanhar.
Deus disse também à mulher: Eu vos afligirei com vários males durante a vossa gravidez; parireis na dor; estareis sob a dominação de vosso marido, e ele vos dominará.

Disse em seguida a Adão: Porque escutastes a voz de vossa mulher, e comestes do fruto da árvore da qual vos proibi de comer, a terra será maldita por causa do que fizestes, e dela não tirareis de que vos alimentar durante toda a vossa vida senão com muito trabalho.

Ela vos produzirá espinhos e sarças, e vos nutrireis da erva da terra. E comereis o vosso pão com o suor de vosso rosto, até que retorneis à terra de onde fostes tirado, porque sois pó, e em pó retornareis.

E Adão deu à sua mulher o nome de Eva, que significa a vida, porque era a mãe de todos os viventes.

O Senhor Deus fez também, para Adão e sua mulher, roupas de peles com as quais os revestiu. E disse: Eis Adão tornado como um dos nossos sabendo o bem e mal. Impeçamos, pois, agora, que não leve sua mão à árvore da vida, que não tome também de seu fruto, e que, comendo desse fruto, não viva eternamente.

O Senhor Deus fê-lo sair do jardim de delícias, a fim de que fosse trabalhar na cultura da terra de onde fora tirado.

E tendo-os expulsado, colocou os querubins diante do jardim de delícias, que  faziam cintilar uma espada de fogo, para guardar o caminho que conduzia à árvore da vida.


           Sob uma imagem pueril, e às vezes ridícula, detendo-se na forma, a alegoria esconde, frequentemente, as maiores verdades. (...) Na Gênese, é necessário ver as grandes verdades morais sob figuras materiais que, tomadas pela letra, seriam tão absurdas quanto se, em nossas fábulas, se tomassem pelas letras as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.

          Adão é a personificação da Humanidade; sua falta individualiza a fraqueza do homem, em quem predominam os instintos  materiais, aos quais não sabe resistir. (Está bem reconhecido hoje que a palavra hebraica haadam não é um nome próprio, mas que significa o homem em geral, a Humanidade, o que destrói todo o alicerce construído sobre a personalidade de Adão.)

          A árvore, como árvore da vida, é o emblema da vida espiritual; como árvore da ciência, é o da consciência do homem que adquire do bem e do mal para o desenvolvimento de sua inteligência, e do livre-arbítrio em virtude do qual ele escolhe entre os dois; marca o ponto em que a alma do homem deixa de ser guiada somente pelos instintos, toma posse de sua liberdade e incorre na responsabilidade de seus atos.

          O fruto da árvore é o emblema do objetivo dos desejos materiais do homem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência; resume, sob uma mesma figura, os motivos de arrastamento ao mal; comê-lo, é sucumbir à tentação. Ele cresce no meio do jardim das delícias para mostrar que a sedução está no próprio seio dos prazeres, e lembrar que, se o homem dá preponderância aos gozos materiais, prende-se à Terra e afasta-se de sua destinação espiritual.

          A morte da qual está ameaçado, se transgride a proibição que lhe é feita, é uma advertência das consequências inevitáveis, físicas e morais, que arrasta a violação das leis divinas, que Deus gravou em sua consciência. É bem evidente que não se trata aqui da morte corpórea, uma vez que, depois de sua falta, Adão vive ainda por muito tempo, mas bem da morte espiritual, dito de outro modo, da perda dos bens que resultam do adiantamento moral, perda da qual a sua expulsão do jardim das delicias é a imagem.

          A serpente está longe de passar hoje pelo tipo da astúcia; está, pois, aqui, com relação à sua forma antes que pelo seu caráter, uma alusão à perfídia dos maus conselhos que deslizam como a serpente, e nos quais, frequentemente, por essa razão, não se confia mais. Alias, se a serpente, por ter enganado a mulher, foi condenada a rastejar sobre o ventre, isso queria dizer que ela antes tinha pernas, e, então, não era mais uma serpente.

          É necessário, notar, por outro lado, que a palavra hebraica nâhâsch, traduzida pela palavra serpente, vem da raiz nâhâsch que significa: fazer encantamentos, adivinhar as coisas ocultas, e pode significar: encantador, adivinho. (...) Não foi senão na versão dos Setenta, - que segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em muito lugares, - escrita em grego no segundo século antes da era cristã, que a palavra nâhâsch foi traduzida por serpente. As inexatidões dessa versão, sem dúvida, prendem-se às modificações que a língua hebraica sofrera no intervalo; porque o hebreu do tempo de Moisés era então uma língua morta, que diferia do hebreu vulgar, tanto quanto o grego antigo e o árabe literário diferem do grego e do árabe modernos.



          A passagem onde está dito que: “O Senhor passeava pelo paraíso, depois do meio-dia, quando se levantou um vendo brando.” (...) Nada tem que deva surpreender reportando-se à ideia que os Hebreus, dos tempos primitivos, faziam da divindade. Para essas inteligências rudes, incapazes de conceber abstrações, Deus devia revestir uma forma concreta, e referiam tudo à Humanidade como ao único ponto conhecido. (...) É necessário, pois, considerar essa passagem como uma alegoria da Divindade vigiando ela mesma os objetos de sua criação.

(...)

         Deus não  criara Adão e Eva para que permanecessem sozinhos sobre a Terra; e a prova disso está nas próprias palavras que dirigiu imediatamente depois de sua formação, então quando ainda estavam no paraíso terrestre: “Deus os abençoou e disse: Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a.” (Cap. I, v. 28.) Uma vez que a multiplicação do homem era uma lei desde o paraíso terrestre, a sua expulsão não poderia ter por causa o fato suposto.

         O que dá crédito a essa suposição é o sentimento de vergonha de que Adão e Eva foram tomados diante de Deus, e que os levou a se esconderem. Mas essa própria vergonha é uma figura por comparação: ela simboliza a confusão que todo culpado sente em presença daquele a quem ofendeu. (...) Hoje, sabemos que essa falta não foi um ato isolado, pessoal a um indivíduo, mas que ela compreender, sob um fato alegórico único, o conjunto das prevaricações das quais pode se tornar culpada a humanidade ainda imperfeita da Terra, e que se resumem nestas palavras: infração às leis de Deus. Eis por que a falta do primeiro homem, simboliza a humanidade, foi simbolizada, ela mesma, por um ato de desobediência.

         Dizendo a Adão que ele tiraria o seu alimento da terra como suor de seu rosto, Deus simboliza a obrigação do trabalho; mas por que faz do trabalho uma punição? Que seria da inteligência do homem se ela não se desenvolvesse pelo trabalho? Que seria a terra, se ela não fosse fecundada, transformada, saneada pelo trabalho inteligente do homem?

         Está dito (cap. II, v. 5 e 7): “O Senhor Deus não fizera ainda chover sobre a Terra, e não tinha nenhum homem para trabalhá-la. O Senhor formou, pois, o homem do limo da terra.” Estas palavras, aproximadas destas: Enchei a Terra, provam que o homem estava, desde a origem, destinado a ocupar toda a Terra e a cultivá-la; e, por outro lado, que o paraíso terrestre não era um lugar circunscrito sobre um canto do globo. Se a cultura da Terra deveria ser a consequência da falta de Adão, disso resulta que, se Adão não pecasse, a Terra ficaria inculta, e que os objetivos de Deus não teriam se cumprido.

         Por que disse Ele à mulher que, porque ele cometeu a falta, parirá na dor? Como a dor do parto pode ser um castigo, uma vez que é a consequência do organismo, e que está fisiologicamente provado que ela é necessária? Como uma coisa que está segundo as leis da natureza pode ser uma punição? (...)

         Notemos, em primeiro lugar que se, no momento da criação de Adão e Eva, sua alma fosse tirada do nada, como se ensina, elas deveriam ser noviças em todas as coisas; não deveriam saber o que é morrer. Uma vez que estavam sós sobre a Terra, enquanto viveram no paraíso terrestre, não viram ninguém morrer; como compreenderiam o que era morrer? Como Eva poderia compreender que parir na dor seria uma punição, uma vez que, acabaria de nascer para a vida, nunca tivera filhos, e que era a única mulher no mundo? (...) Não deveriam compreender nem o Criador nem o objetivo da proibição que lhes fazia.

         O Espiritismo explica sem dificuldade e de maneira racional, pela anterioridade da alma e a pluralidade das existências, lei sem a qual tudo é mistério e anomalia na vida do homem. Com efeito, admitamos que Adão e Eva já tenham vivido, tudo se encontra justificado: Deus não lhes fala como a crianças, mas como a seres em estado de compreender e que o compreendem, prova evidente de que tem um conhecimento anterior. Admiramos, por outro lado, que viveram num mundo mais avançado e menos material do que o nosso, onde o trabalho do espírito supria o trabalho do corpo; que pela sua rebelião à lei de Deus, figurada pela desobediência, hajam sido excluídos e exilados, por punição, sobre a Terra, onde o homem, em consequência da natureza do globo, está sujeito a um trabalho corporal, Deus tinha razão em dizer-lhes: No mundo onde ides viver doravante, “cultivareis a terra e dela retirareis o vosso alimento com o suor do vosso rosto;” e à mulher: “Parireis com dor,” porque tal é a condição deste mundo.

         O paraíso terrestre, cujos traços inutilmente se tem procurado sobre a Terra, era, pois, a figura onde vivera Adão, ou, antes, a raça dos espíritos dos quais é a personificação. A expulsão do paraíso marca o momento em que esses espíritos vieram se encarnar entre os habitantes deste mundo, e a mudança de situação que lhe foi a consequência. O anjo armado de uma espada flamejante, que proíbe a entrada no paraíso, simboliza a impossibilidade em que estão os espíritos dos mundos inferiores de penetrar nos mundos superiores, antes de tê-lo merecido por sua depuração.

         Eram necessários os conhecimentos trazidos pelo Espiritismo a respeito das relações do princípio espiritual e do princípio material, sobre a natureza da alma, sua criação no estado de simplicidade e de ignorância, sua união com o corpo, sua marcha progressiva indefinida através das existências sucessivas, e através dos mundos que são outros tantos degraus no caminho do aperfeiçoamento, sua libertação gradual da influência da matéria pelo uso de seu livre-arbítrio, a causa de seus pendores bons ou maus e de suas aptidões, o fenômeno do nascimento e da morte, o estado do espírito na erraticidade, enfim, o futuro que é o prêmio de seus esforços para se melhorar e de sua perseverança no bem, para lançar a luz sobre todas as partes da Gênese espiritual.

        Graças a esta luz, o homem sabe doravante de onde vem, para onde vai, por que está sobre a Terra e por que sobre; sabe que o seu futuro está entre as suas mãos, e que a duração de seu cativeiro neste mundo depende dele. A Gênese, saída da alegoria estreita e mesquinha,aparece-lhe grande e digna da majestade, da bondade e da justiça do Criador. Considerada deste ponto de vista, a Gênese confundirá a incredulidade e vencê-la-á.     


Fonte: A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. XII.



quinta-feira, 26 de julho de 2018

DOUTRINA DOS ANJOS DECAÍDOS E DO PARAÍSO PERDIDO

        Os mundos progridem fisicamente pela elaboração da matéria, e moralmente pela depuração dos Espíritos que os habitam. Neles, a felicidade está em razão da predominância do bem sobre o mal, e a predominância do bem é o resultado do avanço moral dos espíritos. O progresso intelectual não basta, uma vez que, com a inteligência, podem fazer o mal.

         Então, pois, quando um mundo chega a um de seus períodos de transformação, que deve fazê-lo subir na hierarquia, mutações se operam na sua população encarnada e desencarnada; é então que ocorrem as grandes emigrações e imigrações. Aqueles que, apesar de sua inteligência e de seu saber, perseveraram no mal, em sua revolta contra Deus e suas leis, serão doravante um entrave para o progresso moral ulterior, uma causa permanente de perturbação para o repouso e a felicidade dos bons, por isso eles são excluídos e enviados para os mundos menos avançados; ali aplicarão a sua inteligência e a intuição dos conhecimentos adquiridos ao progresso daqueles entre os quais são chamados a viver, ao mesmo tempo que expiarão, numa série de experiências penosas e por um duro trabalho, as suas faltas passadas e o seu endurecimento voluntário.



         Que serão, entre esses povos, novos para eles, ainda na infância da barbárie, senão anjos ou espíritos decaídos enviados em expiação? A Terra, da qual foram expulsos, não é para eles um paraíso perdido? Não era para eles um lugar de delicias em comparação com o meio  ingrato onde vão se achar relegados durante milhares de séculos, até o dia em que terão merecido a sua liberdade? A vaga lembrança intuitiva que dela conservam é para eles como uma miragem longínqua, que lhes lembra o que perderam por sua falta.

         Mas, ao mesmo tempo que os maus partiram do mundo que habitavam, são substituídos por espíritos melhores, vindo seja da erraticidade do mesmo mundo, seja de um mundo menos avançado que mereceram deixar, e para os quais a sua nova morada é uma recompensa. Estando a população espiritual assim renovada e purgada de seus piores elementos, ao cabo de algum tempo o estado moral do mundo se acha melhorado.

         Essas mutações, algumas vezes, são parciais, quer dizer, limitadas a um povo, a uma raça; de outras vezes, são gerais, quando o período de renovação chegou para o globo.

          A raça adâmica tem todos os caracteres de uma raça proscrita; os espíritos que dela fazem parte foram exilados sobre a Terra, já povoada, mas por homens primitivos, mergulhados na ignorância, e que tiveram por missão fazer progredir levando entre eles as luzes de uma inteligência desenvolvida. Não foi, com efeito, o papel que essa raça cumpriu até hoje? A sua superioridade intelectual prova que o mundo de onde saiu era mais avançado do que a Terra; mas esse mundo, devendo entrar em uma nova fase de progresso, e esses espíritos, tendo em vista a sua obstinação, não tendo sabido se colocar nessa altura, aí estariam deslocados e seriam um entrave à marcha providencial das coisas; por isso, dele foram excluídos, ao passo que outros mereceram substituí-los.

         Relegando essa raça sobre esta Terra de trabalho e de sofrimento, Deus teve razão em dizer-lhe: “Dela tirarás teu alimento com o suor de teu rosto.” Em sua mansuetude, prometeu que lhe enviaria um Salvador, quer dizer, aquele que deveria iluminar o seu caminho a seguir, para sair deste lugar de miséria, deste inferno, e chegar à felicidade dos eleitos. Esse salvador enviou-lhe na pessoa do Cristo, que ensinou a lei de amor e de caridade, desconhecida para eles, e que deveria ser a verdadeira âncora de salvação.

         É igualmente com o objetivo de fazer avançar a Humanidade, num sentido determinado, que os espíritos superiores, sem terem as qualidades do Cristo, se encarnam de tempos em tempos sobre a Terra, para nela cumprirem missões especiais que aproveitam, ao mesmo tempo, ao seu adiantamento pessoal, se as cumprem segundo os objetivos do Criador.

        Sem a reencarnação, a missão do Cristo não teria sentido, assim como a promessa feita por Deus. (...) Dizei que todas essas almas faziam parte da colônia de espíritos exilados sobre a Terra no tempo de Adão, e que estavam manchadas por vícios que as fizeram excluir de um mundo melhor, e tereis a única interpretação racional do pecado original, pecado próprio a cada indivíduo, e não o resultado da responsabilidade da falta de um outro que nunca conheceu; dizei que essas almas, ou espíritos, renascem diversas vezes sobre a Terra, na vida corpórea para progredirem e se depurarem; que o Cristo veio esclarecer essas mesmas almas, não só por suas vidas passadas, mas para suas vidas ulteriores, e somente então dareis à sua missão um objetivo real e sério, aceitável pela razão.

(...)


         É como se Deus fez os espíritos exilados ouvirem: “Desobedecestes as minhas leis, foi por isso que vos expulsei do mundo em que poderíeis viver feliz e em paz; aqui sereis condenados ao trabalho, mas podereis, pela vossa boa conduta, merecer o vosso perdão e reconquistar a pátria que perdestes por vossa falta, quer dizer, o céu?”

         À primeira vista, a ideia de queda parece estar em contradição com o princípio de que os espíritos não podem retrogradar; mas é necessário considerar que não se trata de um retorno ao estado primitivo; o espírito, embora numa posição inferior, não perde nada do que adquiriu; seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo, qualquer que seja o meio em que se encontre colocado. Está na posição do homem do mundo condenado à prisão pelas suas más ações; certamente, está degradado, decaído, do ponto de vista social, mas não se torna nem mais estúpido, nem mais ignorante.
         
       Os espíritos da raça adâmica, uma vez transplantados sobre a terra de exílio, não se despojaram instantaneamente de seu orgulho e de seus maus instintos; conservaram, ainda  por muito tempo, as tendências de sua origem, um resto do velho fermento; ora, não é isso o pecado original?



Fonte: A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. XI.



sexta-feira, 20 de julho de 2018

RAÇA ADÂMICA

          Segundo o ensino dos espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, querendo-se, uma dessas colônias de espíritos, vindos de uma outra esfera, que deram nascimento à raça simbolizada na pessoa de Adão, e, por esta razão, chamada raça adâmica. Quando ela chegou, a Terra estava povoada desde tempos imemoriais. (...)


         A raça adâmica, mais avançada do que aquelas que a precederam sobre a Terra, era, com efeito, mais inteligente; foi ela que levou todas as outras ao progresso. A Gêneses no-la mostra, desde seus princípios, industriosa, apta para as artes e para as ciências, sem passar pela infância intelectual, o que não é o próprio das raças primitivas, mas o que concorda com a opinião de que se compunha de espíritos que já progrediram. Tudo prova que ela não era antiga sobre a Terra, e nada se opõe a que não esteja aqui senão há alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, e, ao contrário, tenderia a confirmá-las.

         A doutrina que fez todo o gênero humano proceder de uma única individualidade, há seis mil anos, não é mais admissível no estado atual dos conhecimentos. As principais considerações que a contradizem, tiradas da ordem física e da ordem moral, se resumem nos seguintes  pontos:

         Do ponto de vista fisiológico, certas raças apresentam tipos particulares característicos, que não permitem assinalar-lhes uma origem comum. Há diferenças que, evidentemente, não são o efeito do clima. (...) É necessário, pois, considerar que as diversas raças como tendo a sua origem própria e nascidas simultaneamente, ou sucessivamente, sobre diferentes partes do globo; seu cruzamento produziu as raças mistas secundárias. Os caracteres fisiológicos das raças primitivas são o indício evidente de que elas provieram de tipos especiais.

         Adão e seus descendentes são representados na Gênese como homens essencialmente inteligentes, uma vez que, desde a segunda geração, edificam as suas casas, cultivam a terra, trabalham os metais. Seus progressos nas artes e nas ciências foram rápidos e constantemente sustentados. Não se conceberia, pois, que essa estirpe tivesse, por descendentes, povos numerosos tão atrasados, de uma inteligência tão rudimentar. (...) Uma diferença tão radical nas aptidões intelectuais, e no desenvolvimento moral, atesta, com não menos evidência, uma diferença de origem.

          Independentemente dos fatos geológicos, a prova da existência do homem sobre a Terra antes da época fixada pela Gênese é tirada da população do globo.

         Sem falar da cronologia chinesa, que remonta, diz-se, a trinta mil anos, documentos mais autênticos atestam que o Egito, a Índia e outros países, estavam povoados e florescentes pelo menos três mil anos antes da era cristã, mil anos, consequentemente, depois da criação do primeiro homem, segundo a  cronologia bíblica. Documentos e observações recentes não deixam nenhuma dúvida, hoje, sobre as relações que existiram entre a América e os antigos Egípcios; de onde é necessário concluir que esse continente já era povoado nessa época. Seria, pois, preciso admitir que, em mil anos, a posteridade de um único homem pode cobrir a maior parte da Terra; ora, uma tal fecundidade seria contrária a todas as leis antropológicas.

          A  impossibilidade se torna ainda mais evidente se se admite, com a Gênese, que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, com exceção de Noé e sua família, que não era numerosa, no ano de 1656, seja 2348 antes da era cristã. Não seria, pois, em realidade, que de Noé dataria o povoamento do globo; ora, quando os Hebreus se estabeleceram no Egito, 612 anos depois do dilúvio, esse já era um poderoso império, que teria sido povoado, sem falar de outros países, em menos de seis séculos, só pelos descendentes de Noé, o que não é admissível.

         Notemos, de passagem, que os Egípcios acolheram os Hebreus como estrangeiros; seria de espantar que tivessem perdido a lembrança de uma comunidade de origem tão próxima, então que conservavam religiosamente os monumentos de sua história.

          Uma lógica rigorosa, corroborada pelos fatos, demonstra, pois, de maneira mais peremptória, que o homem está sobre a Terra há um tempo indeterminado, bem anterior à época assinalada pela Gênese. Ocorre o mesmo com a diversidade de estirpes primitivas; porque demonstrar a impossibilidade de uma proposição é demonstrar a proposição contrária. Se a geologia descobre traços autênticos da presença do homem antes do grande período diluviano, a demonstração será ainda mais absoluta.



Fonte: A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. XI.


sábado, 14 de julho de 2018

EMIGRAÇÕES E IMIGRAÇÕES DOS ESPÍRITOS


        Nos intervalos de suas existências corpóreas, os espíritos estão no estado de erraticidade, e compõem a população espiritual ambiente do globo. Para os mortos e os que nascem, essas duas populações se inclinam incessantemente uma para a outra; há, pois, diariamente, emigrações do mundo corpóreo no mundo espiritual, e imigrações do mundo espiritual no mundo corpóreo: é o estado normal.


       Em certas épocas, reguladas pela sabedoria divina, essas emigrações e essas imigrações se operam em massas mais ou menos consideráveis, em consequência das grandes revoluções que fazem partir, ao mesmo tempo, quantidades inumeráveis, as quais são logo substituídas por quantidades equivalentes de encanações. É necessário, portanto, considerar os flagelos e os cataclismas como ocasiões de chegadas e de partidas coletivas, de meios providenciais para renovar a população corpórea do globo, de retemperá-la com a introdução de novos elementos espirituais mais depurados. Se, nessas catástrofes, há destruição de um grande numero de corpos, não há senão envoltórios despedaçados, mas nenhum espírito perece: não fazem senão mudar de meio; em lugar de partir isoladamente, partem em número, eis toda a diferença, porque partir por uma causa ou por outra, não deixam de partir fatalmente cedo ou tarde.

       As renovações rápidas e quase instantâneas que se operam no elemento espiritual da população, em consequência de flagelos destruidores, aceleram o progresso social; sem as emigrações e as imigrações que vem, de tempos a tempos, dar-lhe um violento impulso, ele caminharia com uma extrema lentidão.

       É notável que todas as grandes calamidades, que dizimam as populações, são sempre seguidas de uma era de progresso na ordem física, intelectual e moral e, por consequência, no estado social das nações nas quais se cumprem. É que tem por objetivo operar um remanejamento na população normal e ativa do globo.


      Essa transfusão que se opera entre a população encarnada e a população desencarnada de um mesmo globo se opera, igualmente, entre os mundos, seja individualmente nas condições normais, seja por massas em circunstâncias especiais. Há, pois, emigrações e imigrações coletivas de um mundo para outro. Disso resulta a introdução, na população de um globo, de elementos inteiramente novos; novas raças de espíritos vem se misturar as raças existentes, constituindo novas raças de homens. Ora, como os espíritos nunca perdem o que adquiriram, levam com eles a inteligência e a intuição dos conhecimentos que possuem; imprimem, consequentemente, o seu caráter à raça corpórea que vem animar. Eles não tem necessidade, para isso, que seus novos corpos sejam criados especialmente para o seu uso; uma vez que a espécie corpórea existe, encontra-se toda pronta para recebe-los. São, pois, simplesmente novos habitantes; em chegando sobre a Terra, de início, fazem parte de sua população espiritual, depois se encarnam como os outros.  


Fonte: A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. XI



quinta-feira, 5 de julho de 2018

ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS

          O Espiritismo nos ensina de que maneira se opera a união do espírito e do corpo na encarnação.

          O espírito, pela sua essência espiritual, é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter uma ação direta sobre a matéria, sendo-lhe necessário um intermediário; esse intermediário está no envoltório fluídico que faz, de alguma sorte, parte integrante do espírito, envoltório semi-material, quer dizer, tendo da matéria por sua origem e da espiritualidade por sua natureza etérea; como toda matéria, ela é haurida no fluido cósmico universal, que sofre nessa circunstância, uma modificação especial. Esse envoltório, designado sob o nome de perispírito, de um ser abstrato, faz um ser concreto, definido, perceptível pelo pensamento; ele o torna apto para agir sobre a matéria tangível, do mesmo modo que todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.


        O fluido perispiritual é, pois, o traço de união entre o espírito e a matéria. Durante a sua união com o corpo, é o veículo de seu pensamento, para transmitir o movimento às diferentes partes do organismo que agem sob o impulso de sua vontade, e para repercutir no espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores. Ele tem por fio condutor os nervos.

        Quando o espírito deve se encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que não é outra coisa senão uma expansão do seu perispírito, liga-o ao germe para o qual se acha atraído, por uma força irresistível, desde o momento da concepção. À medida que o germe se desenvolve, o laço se aperta; sob a influência do princípio vital material do germe, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, com o corpo que se forma: de onde se pode dizer que o espírito, por intermédio de seu perispírito, toma, de alguma sorte, raiz nesse germe, como uma planta na terra. Quando o germe está inteiramente desenvolvido, a união é completa, e, então, ele nasce para a vida exterior.

         Por um efeito contrário, essa união do perispírito e da matéria carnal, que se cumprira sob a influência do princípio vital do germe, quando esse princípio deixa de agir, em consequência da desorganização do corpo, a união, que era mantida por uma força atuante, cessa quando essa força deixa de agir; então o perispírito se desliga, molécula a molécula, como estava unido, e o espírito se entrega à sua liberdade. Assim, não é a partida do espírito que causa a morte do corpo, mas a morte do corpo que causa a partida do espírito.

        Desde o instante que se segue à morte, a integridade do espírito está inteira; que as suas faculdades adquirem mesmo uma penetração maior, ao passo que o princípio de vida está extinto do corpo, é a prova evidente de que o princípio vital e o princípio espiritual são duas coisas distintas.

        O Espiritismo nos ensina, pelos fatos que nos faculta observar, os fenômenos que acompanham essa separação; algumas vezes, ela é rápida, fácil, doce e insensível; de outras vezes, é lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, segundo o estado moral do espírito, e pode durar meses inteiros.

        Um fenômeno particular, igualmente assinalado pela observação, acompanha
sempre a encarnação do espírito. Desde que este é preso pelo laço fluídico que o liga ao germe, a perturbação se apodera dele; essa perturbação cresce à medida que o
laço se aperta, e, nos últimos momentos, o espírito perde toda a consciência de si mesmo, de sorte que ele nunca é testemunha consciente de seu nascimento. No momento em que a criança respira, o espírito começa a recobrar as suas faculdades, que se desenvolvem à medida que se formam e se consolidam os órgãos que devem servir para a sua manifestação.

         Mas, ao mesmo tempo que o espírito recobra a consciência de si mesmo, ele perde a lembrança de seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões adquiridas anteriormente, aptidões que estavam, momentaneamente, estacionadas em seu estado latente e que, em retomando a sua atividade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que o fazia precedentemente; ele renasce o que se fez pelo seu trabalho anterior, é, para ele, um novo ponto de partida, um novo degrau a subir. Aqui ainda se manifesta a bondade do Criados,porque a lembrança de um passado, frequentemente penoso ou humilhante, juntando-se às amarguras de sua nova existência, poderia perturbá-lo ou entravá-lo; ele não se lembra senão daquilo que aprendeu, porque isso lhe é útil. Se, algumas vezes, conserva uma vaga intuição dos acontecimentos passados, é como a lembrança de um sonho fugido. É, pois, um homem novo, por ancião que seja o seu espírito, ele se apoia sobre novos hábitos, com a ajuda dos que adquiriu. Quando ele entra na vida espiritual, o seu passado se desenrola aos seus olhos, e julga se empregou bem ou mal o seu tempo.

         Não há, pois, solução de continuidade na vida espiritual, apesar do esquecimento do passado; o espírito é sempre ele, antes, durante a encarnação e depois dela; a encarnação não é senão uma fase especial de sua existência. Esse esquecimento não ocorre mesmo senão durante a vida exterior de relação; durante o sono, o espírito, em parte desligado dos laços carnais, entregue à liberdade e à vida espiritual, lembra-se; sua visão espiritual não é mais tanto obscurecida pela matéria.

(...)

         A obrigação, para o espírito encarnado, de prover à nutrição de seu corpo, sua segurança e seu bem estar, constrange-o a aplicar as suas faculdades na busca de exercê-las e desenvolvê-las. Sua união com a matéria é, pois, útil ao seu adiantamento; eis por que a encarnação é uma necessidade. Por outro lado, pelo trabalho inteligente que realiza em seu proveito sobre a matéria, concorre para a transformação e o progresso material do globo em que habita; assim é que, progredindo ele mesmo, colabora na obra do Criador, de que é agente inconsciente.

         Mas a encarnação do espírito não é constante nem perpétua; não é senão transitória; deixando um corpo, não retoma outro imediatamente; durante um lapso de tempo mais ou menos considerável, vive da vida espiritual, que é a vida normal; de tal sorte que a soma do tempo passado nas diferentes encarnações é pouca coisa, comparada ao tempo que ele passa no estado de espírito livre.

         No intervalo dessas encarnações, o espírito progride igualmente, no sentido de que aproveita, para o seu adiantamento, os conhecimentos e a experiência adquiridos na vida corpórea; ele examina o que fez em sua permanência terrestre, passa em revista o que aprendeu, reconhece suas faltas, organiza seus planos e toma as resoluções segundo as quais conta guiar-se numa nova existência, tratando de fazer o melhor. Assim é que cada existência é um passo adiante na via do progresso, uma espécie de escola de aplicação.

         A encarnação não é, pois, normalmente, uma punição para o espírito, como alguns o pensam, mas uma condição inerente à inferioridade do espírito e um meio de progredir.

         À medida que o espírito progride moralmente, ele se desmaterializa, quer dizer que, subtraindo-se à influência da matéria, depura-se; sua vida se espiritualiza, suas faculdades e suas percepções se estendem; sua felicidade está em razão do progresso realizado. Mas como age em virtude do seu livre-arbítrio, pode, por negligência ou má vontade, retardar o seu adiantamento; prolongar, por conseguinte, a duração de suas encarnações materiais, que se tornam então,para ele, uma punição, uma vez que, por sua falta, permaneceu nas classes inferiores, obrigado a recomeçar a mesma tarefa. Depende, pois, do espírito abreviar, por seu trabalho e depuração de si mesmo, a duração do período de encarnação. 

          O progresso material de um globo segue o progresso moral de seus habitantes; ora, como a criação dos mundos e dos espíritos é incessante, que estes progridem mais ou menos rapidamente, em virtude de seu livre-arbítrio, disso resulta que há mundos mais ou menos antigos, em diferentes graus de adiantamento físico e moral, onde a encarnação é mais ou menos material, e onde, por conseguinte, o trabalho, para os espíritos, é mais ou menos rude. Sob esse ponto de vista, a Terra é um dos menos avançados; povoada de espíritos relativamente inferiores, a vida corpórea nela é mais penosa do que em outros, como ocorre com os mais atrasados, onde é ainda mais penosa que sobre a Terra, e para os quais a Terra seria, relativamente, um mundo feliz. 

                 

          Quando os espíritos adquiriram, sobre um mundo, a soma do progresso que o estado desse mundo comporta, deixam-no para se encarnarem num outro mais avançado, onde adquirem novos conhecimentos, e assim por diante até que, não lhes sendo mais útil a encarnação num corpo material, vivem exclusivamente da vida espiritual, onde progridem ainda num outro sentido e por outros meios. Chegados ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Todo-Poderoso, tem seu pensamento, tornam-se seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo dos mundos, tendo sob suas ordens os espíritos em diferentes graus de adiantamento.

         Assim, todos os espíritos, encarnados e desencarnados, em qualquer grau de hierarquia a que pertençam, desde o menor ao maior, tem as suas atribuições no grade mecanismo do Universo; todos são uteis ao conjunto, ao mesmo tempo que são úteis a si mesmos; aos menos avançados, como a de simples operários, incumbe uma tarefa material, de início inconsciente, depois gradativamente inteligente. Por toda parte há atividade no mundo espiritual, em nenhuma parte a ociosidade inútil.

          A coletividade dos espíritos, de alguma sorte, é a alma do Universo; é o elemento espiritual que age em tudo e por toda parte, sob o impulso do pensamento divino. Sem esse elemento, não há senão a matéria inerte, sem objetivo, sem inteligência, sem outro motor que as forças materiais que deixam uma multidão de problemas insolúveis; pela ação do pensamento espiritual individualizado, tudo tem um objetivo, uma razão de ser, tudo se explica; eis por que, sem a espiritualidade, tropeça-se com dificuldades insuperáveis.


Fonte: A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. XI.